O Livro Desconhecido

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Domingo, Novembro 02, 2008


O SENTIMENTO DE DEPENDÊNCIA

Ah, mas o que se pode fazer com a sensação túrgida e sincera de impotência diante do conhecimento do outro, de quem se tanto necessita? É tão ruim e pesado o que se carrega no peito quando se espera ansiosamente por alguma coisa prometida que às vezes é melhor se deixar tombar e adormecer simplesmente, encolhido num canto, desejando que sobre si recaia a mortalha do esquecimento. Pois pior do que ter de pedir algo e aguardar a boa vontade de quem se pede, é reconhecer a sua própria dependência como um traço indissociável da sua alma, como um castigo que se recebe pela inocência e se tem de agradecer para que não se agrave. De todos os sentimentos daninhos que insistem em brotar de dentro da crosta humana – em geral semeados pelos outros e cultivados por nós mesmos - o de dependência é o que mais desgasta a esperança de uma vida feliz.

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Terça-feira, Outubro 28, 2008


O QUERER

O querer, em mim, se dá no modo acidental como um objeto afiado arranha a pele e deixa atrás de si um roteiro de sangue fino já coagulado.
Em todo o meu corpo e principalmente na mente o querer subverte o pensamento genuíno e ultrapassa o que se conhece por vontade suprema de ser e criar: é a dor de um lago jamais visto, escondido nos recônditos de montanhas inalcançáveis.
Tão grandiosa quanto o meu querer insuflado, no entanto, é a minha vontade de superar-me, que não condiz, em força e fé, com a minha indolência. Pois desejar, por si só, é assumir um compromisso irrevogável e incessante com a coisa desejada; é sublimar todo o resto que compõe a sua vida, anulando, inclusive, o seu ego.
Mas por que desejar qualquer coisa que seja, se tudo o que se necessita é de um abraço involuntário e despropositado?
Eu, em particular, ainda exerço o direito humano ao querer – muito embora hoje, passados tantos anos da minha derradeira inocência, não saiba mais concatenar minhas múltiplas emoções e selecionar o melhor objeto de devoção, para o qual focalize meus olhos, minha inteligência – exerço o direito humano ao querer e desfruto, a despeito de toda incompreensão que me principia como ser, do privilégio de ter a cada um dos meus sonhos, inconscientemente, saciado plenamente. Porque o querer exorbita a simplicidade natural do que é real e manipula as fraquezas, as carências, as preenchendo com todo o contrário e inesperado.


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Sábado, Outubro 18, 2008


VENCER A SI MESMO

Quando me encontrava em plena adolescência, cingido de dúvidas impossíveis e certezas que avassalariam qualquer equilíbrio emocional, ouvi um conselho imperativo de uma amiga de escola. Sempre indeciso, por diversas vezes dando provas a todos e a mim mesmo da minha insegurança, protelei uma inscrição num curso de roteiro para cinema. As razões para tal eram infindáveis: seria sábado pela manhã, num local muito distante da minha casa; eu estaria sozinho, sem o sustentáculo de um amigo; não fazia a mínima idéia de como faria para chegar lá e voltar para casa depois. No entanto, eu desejava muito fazer o curso. Naquele período da minha vida eu acreditava que havia nascido para o cinema, em especial o roteiro. Meus pensamentos flutuavam fugidios, repletos de imagens, de ações que só caberiam em filmes; eu visualizava tão perfeitamente meus personagens, suas histórias de vida, seus dramas, suas emoções mais profundas, que chegava a crer na sua existência e, por conseguinte, terminava por anular a minha. Não havia outra saída do que me inscrever no curso, oportunidade única que talvez eu nem tivesse mais. Foi então que no último dia de inscrição, conversando com a tal amiga a qual me referi, expus o meu conflito. E não fiquei tão surpreendido intimamente quanto demonstrei fisicamente quando ela me encurralou dizendo: “você tem que aprender a superar as suas limitações!”.
Sim, provavelmente superar as nossas limitações com tranqüilidade espiritual seja o caminho para uma vida plena: livre de antidepressivos, de consultas a psiquiatras e analistas, livre, até, da possibilidade de um fanatismo religioso. É comum se acreditar que a superação de limitações desemboca invariavelmente em vencer na vida, e que vencer na vida é ver-se no topo de uma pirâmide social, tendo sob seus domínios toda a sorte de subordinados, de pessoas dependentes financeira e intelectualmente de si. Mas não! Superar as limitações, embora represente, sim, vencer, nada tem a ver com o outro, senão consigo mesmo. Eis a minha grande descoberta: não precisamos concorrer para vencer o outro – nada de efetivo conquistamos com semelhante motivação – mas apenas para vencer a nós mesmos, nos aperfeiçoando a cada dia como profissionais, como humanos e, acima de tudo, como espíritos imortais em constante aprendizado.


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Domingo, Outubro 12, 2008


A PAIXÃO DO HOMEM

A Via Crucis masculina tem início quando o homem de modo imprevisto toma conhecimento do seu papel na sociedade. A partir de então o entorno exige dele um comportamento predeterminado, muito além das suas forças, da sua moral e, principalmente, das suas aspirações. Pois nem sempre o homem possui vocação para semelhante conceito de homem. Trata-se, portanto, do homem que chora quando a emoção lhe vem, do que fala manso, do que traz serenidade no olhar, do que movimenta os braços e pernas com suavidade e, mesmo tendo cancelados seus arroubos eróticos não reconhecidos, se mostra sempre pronto a acarinhar sutilmente quem quer que seja. São precisamente estes, cujo talento para o amor se sobrepõe à brutalidade dos músculos protuberantes, os mais ultrajados pela língua maldosa e severa dos que não compreendem a multiplicidade humana. Porém, também o homem que na intimidade do lar ama profundamente a sua família convencional – e por ela tudo faz –, necessita provar, na rua, num exercício doloroso de fingimento, que qualquer semelhança com o caráter feminino é pura aparência: um embuste para explicar outro.
Muito a literatura tem falado sobre as mulheres e da variedade de tipos que se pode encontrar em cada esquina. Dissecar o comportamento feminino, ao longo dos séculos, tem sido motivação cada vez mais crescente na arte de milhares de criadores do mundo. Conquanto seja o homem o verdadeiro signo dos que submergem acabrunhadamente nas funduras do humano, através das quais percorre todas as etapas ásperas de sofrimento por estar no mundo e não poder ser com plenitude.

posted byL.3:02 PM

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Sábado, Outubro 04, 2008


VOZES DO ESCURO

Quando a luz se apaga e não há outra saída a não ser esperar que ela reacenda, é o momento em que as mais poderosas vozes são ouvidas pelos humanos. São vozes que recorrem ao tempo, sobretudo ao passado, a fim de investigar as instâncias mais grotescas do presente e desvendá-las; são vozes que gritam, agudas, no silêncio da inércia: aguardar um futuro incerto causa angústia maior se o for em companhia de si mesmo. Lá fora, uma chuva torrencial desaba do céu; os ventos anunciam seu ímpeto destruidor. Os dois juntos narram a sua providencial intenção de prolongar a conversa do homem com o lado mais obscuro de si.
Até que a grande verdade da felicidade lhe venha à mente como uma idéia genuína.

posted byL.7:05 PM

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Sábado, Setembro 27, 2008


MEU CORPO, MINHA MORADA

É chegada a hora de anunciar minha devoção ao corpo, ao tecido humano e perecível que concretiza a idéia singular que se faz da alma. No caso da minha, é totalmente abrigada pela carne, que em geral se adapta facilmente a qualquer outra morada simbólica do cotidiano.
Sendo originalmente ponto culminante da criação divina, é no meu corpo que permito que se exerça ao cansaço o toque da paixão, do desejo, sem que por isso meu espírito sinta qualquer traço da sua energia maculada, apenas a corrente elétrica do prazer. Meu corpo serve lealmente à minha alma como fortaleza intransponível, contra a qual, não raro, acontecem tentativas de transposição. Mas minhas mãos, sobretudo meus verbos e olhares fixos, induzem o conquistador a recuar com o seu exército sedutor.
Nada temo quando trato unicamente do corpo: apenas que ele não se satisfaça da maneira como merece, da maneira para o qual foi fabricado. Por si só é quase uma máquina autônoma que carrega desde o nascimento uma alma autóctone, que jamais, em tempo algum, esboçou a ousadia de comandá-lo. Representam, a despeito dos sentimentos contrários que incitam em si mesmos e em outros, dois pontos cruciais da vida animal, em harmoniosa convivência dentro de um só. Um não pode olhar para o outro, com medo de que haja o reconhecimento da verdade, da sua incontestável semelhança – por isso é tão difícil o espelho: necessitam da simulação, da farsa criada e mantida em pérfido acordo de que são, cada um, provenientes de regiões cósmicas outras e que por isso mesmo em nada se irmanam.
No entanto, quando acontecer o derradeiro desenlace, será também a hora fatídica de a alma, por amor ao corpo que por tantos anos a protegeu, mostrar-se altruísta e doce, e permitir, sem ressentimentos ou possessão, que a sua antiga morada seja, por fim, a morada dos vermes amigos.

posted byL.8:26 PM

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Sábado, Setembro 20, 2008


O CHEIRO DO MAR

“Eu, que não sei nada do mar, descobri que não sei nada de mim” (A. Carolina/ J. Vercilo)

Eis que da minha varanda senti o cheiro do mar, o gosto do sal, trazidos pelo vento praiano ao longe – muito longe –, trazidos pela minha memória de dias de paz. Minha pele então se ressecou como que banhada; tudo o que meus pés nus tocaram virou areia macia e quente; diante de mim o horizonte se abriu em azul celeste: as ondas finalmente se levantaram e o novo ciclo se iniciou. No céu, o sol forte, majestoso, que me aquece e acalenta, me beija. De repente estamos sós: o mar na sua imensidão e eu. Milagre da Terra. As ondas morrem em espuma de esperança sobre os meus pés. Eu cruzo os braços, me aproximo de suas águas e ali vejo, bem perto, ao alcance do meu toque, o espelho de mim.


O BARCO

Vem vindo dentro daquele barco azul e branco o presente que pedi ao mar. Veste branco; os olhos jovens refletem a força eterna que o traz para mim. Os cabelos ficam mais dourados sob a luz do sol. Ele: a praia inicial da minha vida. E eu, na beira, ao lado das grandes pedras, quase todo feito de espuma, o aguardo, ainda vivo, iluminado como um farol: guiando toda a sua rota até mim. Ah, pena eu não poder ser também a estrela que o acompanha durante toda a viagem: antes de subir ao céu já havia me lançado ao mar.


31 DE DEZEMBRO

Ponho o meu barquinho no mar. Tem perfumes, espelho, pente, rosas, brincos, colares, anéis para a Rainha se enfeitar. E na beira, as palmas brancas como símbolo de meu agradecimento. É dia de purificação, de pensar na vida e seguir para um novo ano, uma nova chance.


À MAMÃE OXUM

Minhas lágrimas são as suas; quando me olho no espelho é sua face coberta de pérolas que vejo. Meu silêncio ecoa o murmúrio corrente de sua água doce. Minha alma tem a força das suas pedras e pedrinhas. Meu corpo segue o ritmo de sua dança, segue o ritmo dos seus murmúrios. Sou seu filho, o mais querido, o mais semelhante: menino dos seus olhos. Pois seus encantos e sedução você me empresta sem deixar de ser a dona de mim.
Quando eu morrer, que seja nos seus braços.
E que eu me torne água límpida e fina. E doce.
Não mais só.

posted byL.11:42 AM

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Sábado, Setembro 06, 2008


APRENDENDO A SOFRER

Aprender a sofrer é mais do que um modo de sobrevivência: é um dom dado pelo divino aos homens cuja fé nunca se esgota. Para se saber sofrer, um requisito mais básico do que a fé inabalável em si mesmo e no invisível se faz necessário: a compreensão da própria pequenez da carne e a aceitação das vicissitudes como veículo para o crescimento moral e espiritual.
Mas aprende a sofrer somente aquele que desde pequeno secou a fonte dos olhos; aquele que simplesmente não se importa com a dor – nem a de si, nem a do outro –; aquele que por mais que a vida se apresente colorida, fresca, emocionante, só enxerga em sua frente o nublado que avizinha a tempestade, o corvejar do urubu, a secura desértica que sobe dos asfaltos empoeirados. Quanto à fé que este homem instintivamente carrega, nada tem a ver com a esperança e a paz. Porque só possui esperança e paz aqueles que jamais, em circunstância alguma, ainda que não acreditem tanto assim em si ou nos deuses, concordam passivamente com as tristezas inerentes à vida e vão à luta, buscam a felicidade.
E se orgulham ad aeternum por nunca aprenderem o caminho mais fácil.


SETEMBRO

Setembro sempre vem para mim como prenúncio de felicidade, como se o nascer de uma nova folha verde nos galhos secos da árvore narrasse a aurora de uma nova esperança. Setembro me conduz ao pensamento.


RECADO

Então você faz alguma idéia de todas as lágrimas que chorei em vinte e tantos anos? Certamente não.Tudo o que você pode supor no seu mais inspirado sonho sobre mim é pequeno demais diante do abismo que ecoa dentro do meu corpo: jamais adivinhará o que se passa. Pois meus olhos não refletem, nem denunciam, de tanta secura, e minha boca mente e omite. Meus ouvidos ensurdeceram com o murmuro do mundo. Sei o quanto deve ser doloroso tentar me desvendar e por isso mesmo te liberto: de antemão te concedo o direito de aceitar a parte bruta do meu corpo como se ela por si só se bastasse. Na verdade, sim, se basta, mas ninguém, além de nós dois, pode saber – de modo que o mistério que eu represento permanece intocável. Como vê, meu ego implora que eu me transforme em mito – e se não posso o ser para você, que eu seja para os outros. Que a terra ou o mar ou o fogo me engula e eu desapareça e ninguém tenha certeza da minha morte! Que eu paire na memória coletiva como um fantasma, um arrastar de correntes que perturba na madrugada. É só isso: quando sair, apague as luzes e tranque a porta.
Assim disse Lucrécia antes de depositar o pó na própria bebida.


O PORCO E A GALINHA

Ele nasceu num sítio pequeno, filho de porca premiada com um porco que ninguém sabe de onde surgiu. Era o quinto de cinco irmãos e por isso nasceu minguado, como se os outros lhe tivessem roubado o que lhe fora concedido de forças para nascer. Não veio rosa, nem roxo, nem nada: branco, tal qual um cuspe, encontrado por sorte no meio da placenta da mãe. Deram a ele o nome de Hubert. Cresceu no lugar destinado aos porcos e se tinha um nome era por causa das crianças do sítio, que ainda respeitavam a integridade dos animais. Sua vida resumia-se ao contínuo e metódico hábito de comer, perambular por aí balançando o rabo torcido e roncar de vez em quando uma melodia ininteligível que só mesmo o cachorro, já velho e esclerosado, conseguia entender e apreciar. Mas – veja só que surpresa – Hubert não chafurdava na lama; negava veementemente a sua natureza suína e por isso foi sofrendo preconceitos dentro e fora do chiqueiro. Escamoteado, chegou a dormir ao relento algumas noites; até que tomou consciência da sua importância na vida e tentou se reintegrar na comunidade. Provou a todos que ser porco não significava ser porco, que o tratamento dado a sua espécie deveria ser revisto com mais carinho e atenção pelos donos do sítio. E mais: que era possível transformar o chiqueiro, como o próprio nome dizia, num lugar chic. Foi assim que Hubert, de revolucionário, se tornou mártir dentro e fora do chiqueiro. E sua fama, espalhada no boca a boca pelos outros animais do sítio, foi chegando até as cidades vizinhas e além. Turistas passaram a tirar fotos ao lado de Hubert, o porco que percebeu a nobreza de ser do porco. Foi capa de jornais e revistas; convidado especial de programa de auditório, assunto no exterior durante a semana... e quando o sítio começou a quebrar, quando a vida dos donos foi ficando difícil e aparentemente sem solução, Hubert, como nobre mártir que era, foi o primeiro a ser sacrificado.
E a galinha? A galinha era apenas mais uma galinha de uma loja de galinhas, dessas que têm no chão um tapete de penas multicor e no ar aquela murrinha... de galinha, claro..., cujo dono é sempre um senhor careca, magro, que usa um avental comprido de plástico branco sobre um blusão de mangas arregaçadas, tipo açougueiro que só lida com as galinhas por não sustentar o peso dos bois. Pois então, esta galinha, propriamente, também era uma galinha especial na loja de galinhas. E só por isso, assim como o porco, tinha nome: Catarina. Pois bem: diferente das outras, que eram a todo instante vendidas, Catarina gozava de um lugar aconchegante e cativo na loja, mais especificamente ao lado do balcão, de onde podia assistir o ouriço que as colegas faziam dentro das gaiolas. Era conhecida pelo grupo como a Carcerereira: a mais esperta, viva e fútil de todas as galinhas. Era adulada, cortejada; recebia sorrisos e piscadelas de olhos simpáticos. No entanto, as más línguas – se é que galinha tem língua, eu não sei – cocoricavam que Catarina substituía a esposa que seu Genésio, o dono, nunca teve. Quando tinha confusão entre prisioneiras, Catarina dava saltinhos de asas abertas para acalmar os ânimos das colegas e grunhia um som que parecia um “credo!”. Apesar do peito estufado, do bico pro alto, até que era uma galinha de bom coração, sabe: omitia, como uma mãe omite a realidade ao filho pequeno, o fato de que todas elas só tinham dois destinos: a panela ou o despacho. Bom, talvez até eu esteja enganado sobre o caráter de Catarina porque é provável que ela usasse do poder que tinha sobre o mistério para mitificar sua imagem dentre as galinhas... mas isso não vem ao caso. Acontece que Catarina tinha espírito de mãe. E quando o seu rabo seco pôs um ovo grande e azul, foi uma alegria na loja de galinhas. Nasceria um príncipe ou uma princezinha. Mas nada disso aconteceu: Genésio não podia abrir mão de nenhum ovo que caísse nas suas mãos, ainda que este pertencesse a sua “Cata”. Vendeu-o a um preço ótimo, acima do de mercado, dada a cor jamais vista num ovo autêntico. E Catarina, que até então pensava ser a preferida dentre as preteridas, descobriu que aquilo que ela tinha de mais seu, o amor materno, não era respeitado. E, por ser a diferente, não foi nem para a panela, nem para o despacho: faleceu numa manhã de sábado, amargurada e silenciosa, e seu corpo, embrulhado num saco plástico de mercado, foi jogado às pressas dentro do caminhão de lixo que passava na hora pela rua.
Agora, leitor, você me pergunta por que eu contei essa historinha medíocre, sem nenhum teor poético. E eu te respondo: porque este é meu único modo de fazer homenagens. Acontece que estive pensando esses dias sobre “estar envolvido” com algo e “estar comprometido”. Quando no meu prato veio bacon e ovo eu imediatamente me lembrei do porco e da galinha. A galinha estava toda envolvida ali – oh, galinha, eu até compreendo a sua dor de mãe e lhe sou solidário porque também eu sou mãe de filhos que sou obrigado a dar de alimento ao mundo – mas o porco estava comprometido. Ele se doou por inteiro, sem medo, alcançou a sua finalidade de porco pois de antemão já sabia que o clímax da sua vida seria a morte.
É por isso, porco, que contigo eu vou além do compreender: me identifico de corpo e alma.


SUBLIMAÇÃO PERDIDA

Vou alcançando com curtos braços o limiar de alguma coisa que nem a minha ignorância, nem o meu sexto sentido, souberam identificar. Só posso afirmar que uma transformação está para acontecer; uma espécie de retorno a mim mesmo após uma rápida e vã viagem por outros infernos de mim.

posted byL.11:23 AM

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Segunda-feira, Agosto 04, 2008


UM POUCO MAIS DE TEMPO PARA SONHAR

É o que aquele homem que caminha pelas ruas, atravessando diversos quarteirões, carregando várias sacolas de supermercado, precisa para se sentir útil.
Suas noites são insones, seus dias não têm o mesmo brilho dos da juventude. Alguma coisa se transformou neste meio-tempo. O quê? – ele se indaga, enquanto cumprimenta com um piscar de olhos e aceno de cabeça os velhos amigos de bar. Ele não mais brinca, não ri, não conta piadas; sequer pensa em passa uma noite inteira fora de casa – e se possível nem dormir: juntar um dia no outro fingindo para si mesmo estar vivendo a eternidade. O seu corpo se cansa fácil, agora. Seus cabelos caíram bastante ultimamente; sua barriga aumentara consideravelmente. Mas afinal de contas, qual foi o fator principal que me tornou este homem de classe média baixa, urbano, com um emprego que me dá sustento, mas não me deixa feliz? Por que da noite para o dia me transformei num ser comum, de opiniões unânimes?
Continuou a subir a rua até apontar diante da fachada da sua casa. E então compreendeu, num susto: para alcançar a falsa independência de uma vida adulta, longe das vistas dos pais, ele resolveu se casar com uma moça que pensava amar. E deste amor nasceram vários compromissos importantes que o amarravam cada vez mais a ela, àquela casa, àquele bairro. E, diante desta bola de neve, não viu outra escolha a não ser pensar no seu passado e em sonhar com o aconchego do colo dos pais. Talvez a esposa também se sentisse assim, com vontade de desistir de tudo e admitir que aquele casamento não passara de uma brincadeira de criança. Seria como se a mimosa casinha deles não transpusesse a varanda da casa dos pais, feita num improviso com os tijolos da obra inacabada. Sim, uma obra inacabada era o que significava o casamento para ele e para qualquer um que impõe ao amor o peso do compromisso, um estigma na vida da qualquer um. Mas e o menino? – indagou sua consciência, de repente, para a alma em transe – também ele precisava do aconchego dos pais. O que será do menino tão inocente das escolhas erradas de dois adultos inexperientes com as coisas da vida?
Era possível amar a esposa e sentir-se amado, não fossem as obrigações, as cobranças, o cotidiano. Amar de alma livre, sem cenas de ciúmes, sem esperar absolutamente nada um do outro. Amar! Amar como se ama um sonho bom abruptamente interrompido – e que se busca retomar a todo custo depois. Amar como se ama a esperança que um belo dia de sol faz brotar nos corações; amar como se ama a recepção efusiva de um cão. Amar como se ama todas as marcas do corpo como símbolos de muitas vivências e histórias, que seguirão adiante.
O menino precisava descobrir ainda cada um desses amores. E sobretudo, com eles aprender a sonhar e a prolongar este sonho por quanto tempo quisesse. E isso, só pelas mãos dos pais...
Quanto a ele, homem agrilhoado, quanto a ela, mulher esquecida de si, entendiam-se com o olhar, pois compartilhavam da mesma desgraça de não serem nada além do que eram de fato. Não havia solução.
Parado diante da casa, o homem olhou para as duas janelas abertas a fim de encontrar vida lá dentro. Porém tudo o que viu foi o escuro de um cômodo desabitado. Abriu vagarosamente o portão em processo de ferrugem e caminhou arrastando os chinelos, tentando um assovio como pedido de ajuda, sustentando nos dedos o peso das caixas de leite, das carnes, legumes e verduras.
E foi ali mesmo, na varanda de cimento cercada por alguns canteiros de flores murchas, sem que ninguém aparecesse, que as bolsas arrebentaram, fazendo rolarem as maçãs, fazendo quebrar cada um dos ovos.


posted byL.11:28 PM

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Sábado, Agosto 02, 2008


COMPULSÃO

Por Sexo.
Por Homem.
Por Mulher.
Por Comida.
Por Religião.
Por Roupa.
Por Viagem.
Por Dinheiro.
Por Carro.
Por Fama.
Por Mim.




posted byL.11:20 AM

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Segunda-feira, Julho 28, 2008


PERDAS E GANHOS

Acontece que o meu computador deu um problema bem no instante em que eu escrevia o melhor de um conto, perdendo quase tudo. Tive um conjunto de sentimentos daninhos: raiva, angústia, ansiedade, mágoa para com essa energia superior que nos governa. Como pôde acontecer esta perda quando me via totalmente livre da preguiça, animado com o que estava produzindo? O momento do conto era crítico: a protagonista revia o seu passado, fazendo um contraponto com os seus gostos presentes: tudo para o lixo. A minha vontade primeira foi desistir de tudo – nem terminar o conto, nem começar outro. Nunca mais. Desacreditar de uma vocação e desenganar-me, dizendo que “escrever não era pra mim”. Porém, uma outra vontade me dominou: a de ultrapassar esta barreira imposta pelo acaso. Testar, enfim, o meu talento para vencer empecilhos, para vencer a indolência, tão viva em mim, ser mimado. Passadas algumas horas, retornei ao computador e recomecei o conto de onde parei, procurando recriar a cena perdida mas com um outro olhar, com uma nova interpretação do fato. Foi então que eu compreendi o que se passava no íntimo da protagonista: também ela havia se perdido, num susto, no intervalo entre o passado e o presente. Seu progresso como humano se deu na superficialidade da vida, ao passo que a sua característica mais profunda foi forçadamente adormecida a fim de que sobrevivesse no mundo da terra. Reencontrar o fio da meada que há entre passado e presente perdidos e reconstruir o futuro é a busca menos vã que alguém pode empreender. Pois entre estes dois momentos de tempo há uma fenda quase imperceptível, na qual se procriam anonimamente as pragas que pouco a pouco corroem a muralha construída para salvaguardar o futuro. É lá que se encontra a saída, a paz, os ganhos apreendidos das perdas.

posted byL.8:31 PM

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Sábado, Julho 26, 2008


MEDO DA SOLIDÃO

"A solidão me faz companhia"
Clarice Lispector

Meu amigo me confidenciou, dia desses pelo telefone, o seu grande incômodo quando seus companheiros de trabalho o convidam para esticar o dia – ou melhor, a noite – em algum bar badalado ou em uma boate, sob o pretexto de comemorar qualquer coisa ou se despedir de uma colega que mudaria de emprego. Ele não se sente bem. Não só pelo fato de passar a madrugada na rua, em um local que não combina com a sua personalidade e com pessoas que não são tão íntimas, mas porque aquela ação na verdade rompe bruscamente o costume vivido por tantos anos de sempre estar na proteção do lar à noite. Não se sente confortável, enfim, com tais passeios improvisados, que de uma certa forma o deixavam vulnerável e solitário pelas ruas de uma cidade grande adormecida. De modo que, como negasse todos os convites, passou a ser ligeiramente preterido pelos colegas e até criticado. “Tão jovem e desperdiçando a juventude levando uma vida de velho”, decerto pensam e comentam entre eles. Então, nós dois, pelo telefone, começamos a buscar a razão para semelhante comportamento dos jovens de cidades como Rio e São Paulo. Eles estudam, trabalham, alguns possuem inclusive responsabilidades familiares, e mesmo assim encontram disposição para varar a madrugada acordados, bebendo, dançando até cair, perambulando pelas calçadas frias e vazias, carentes de qualquer meio de transporte que os conduza de volta para casa – muitos até ficando na dependência de um outro colega que, alcoolizado, poderá colocar a sua vida em risco. Eu já me vi, no passado, nesta situação e prometi que nunca mais o faria. Por nada nem ninguém. Estes jovens (de corpo ou de alma) crêem firmemente que só desta forma acontece qualquer diversão; só assim suas vidas tomam um brilho, têm um motivo para. Sem ser assim, risos não são dados, a alegria não se faz, pessoas interessantes não conhecem outras pessoas interessantes – e portanto, entende-se, a solidão se faz inevitável. Então concluo que vem do medo da solidão a procura incessante pela diversão institucionalizada no meio de muita gente, no meio de muitas garrafas de bebida alcoólica, sob estrelas e sereno. Estes jovens lotam sua lista de amigos pois temem o vazio, temem o silêncio, o sossego de um quarto à meia-luz, já que sabem, por adivinhar, que isso os obriga a estar em contato íntimo consigo mesmo. E isso é intolerável. Ouvir a própria voz e o seu desejo mais genuíno, olhar num susto o reflexo da sua face nua pode ser assustador e letal; desvendar o próprio segredo acarreta invariavelmente numa desfragmentação de si – e juntar os cacos, reconstruir-se como humano, é por demais trabalhoso e necessita de uma habilidade que poucos souberam desenvolver ao longo dos anos.
Eu amo e opto pela solidão porque sou antes de tudo um ser sitiado pelo nada e, depois, porque só através dela ocorre o verdadeiro encontro de um ser interessante com um outro mais livre e completo: sem o perigo de futuras decepções.







posted byL.10:13 PM

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Segunda-feira, Julho 21, 2008


REGISTRO DE PAIXÃO CANINA

Uivos agudos de cachorro, que poderia ter sido atropelado. Vou averiguar, quase descartando esta hipótese já que não ouvira antes sequer uma freada. Na verdade um macho e uma fêmea acabaram de cruzar desavergonhadamente, bem no meio da calçada, entre as pessoas que vêm e vão. Os cães aguardam uns instantes, arfantes, ainda ligados pelo sexo. Mas o macho é impaciente, vai para lá e para cá carregando à força a sua escolhida, que uiva de dor e prevê numa ansiedade pulsante o fim derradeiro daquilo tudo. Mais dois cachorros assistem a façanha do amigo. Sem aviso, o macho e a fêmea se desengatam, e os quatro, satisfeitos e já esquecidos do incidente, como amigos de longas datas e por isso mesmo livres da falsa polidez dos que querem conquistar a confiança do outro, saem juntos pela rua, farejando de porta em porta, de lixo em lixo, talvez buscando alguém que lhes acene com um prato roto de comida, ou mesmo divida o farelo que lhe resta nas mãos. A paixão desperta fomes insaciáveis. Como ninguém aparece, eles continuam a caminhar desorientados pelas ruas sem asfalto. Quem pode dizer se em busca de uma nova aventura ou de um teto improvisado para descansar?
Ouço jazz.


PÁGINAS EM BRANCO

São três. A primeira diz o quanto eu amei. A segunda me fala das minhas grandes aventuras pela vida afora. A terceira revela a extensão da minha felicidade.


VIVENDO SEM SABER

Eu não estou em mim. Estou vendo meu o meu corpo de uma distância segura, acima, sem deixar de perceber sensorialmente os seus sentidos, os seus gostos, seus desejos. Mas ele vive automaticamente, autonomamente, completamente desligado de mim e inocente de que também eu – na forma volátil de fluido vital – o observo e critico como tantos outros corpos que o cercam. Sim, isso me deixa confortável diante de possíveis dores, não posso negar: ele sofre, não eu. Acontece o que se pode chamar de paz de espírito. Então me pergunto, ainda na dúvida, se assisti-lo a debater-se nas vicissitudes da vida não seria uma maneira de viver sem saber através do balsâmico e angustiante sentimento de compaixão.





MOMENTO HIATO

Respiro e isso é tudo o que sei. Entre um tempo e outro de criação vivo um hiato, um vácuo em cujo solo absolutamente nada com alguma possibilidade de vida nasce. Não consigo concatenar todas as idéias que trago e nem perceber a realidade que me cerca. Nessas horas o melhor é deitar e buscar um sono, que venha de preferência sem sustos ou angústias. Sou muito dado a angústias e a oscilações: quando me atrevo a escrever as letras se arrastam, as palavras se configuram secas, ocas, condizentes ao meu estado físico e mental. E como para estes instantes a única saída é ter em vista um foco, um alvo longínquo e embaçado de luz no qual dificilmente se acerta a flecha, recorro à transcendência inerte para me salvar. Apago o meu passado, anulo o meu presente e não vislumbro mais um futuro: apenas existo consumindo tudo o que já foi criado, absolutamente entregue aos ditames da arte alheia e do roteiro de Deus, energia déspota que sem qualquer consideração e cuidado designou para mim o papel de protagonista da minha própria história.







posted byL.5:42 PM

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Quinta-feira, Julho 17, 2008


O CORRER DAS MINHAS HORAS DE CRIATIVIDADE

De repente se acorda como se acorda a própria natureza com os primeiros raios de sol. E então viver se torna um ato sublime de tamanha identificação com o universo e com a tessitura do próprio corpo que nada do que está além da cama importa. Sou eu abraçado numa intimidade crua comigo mesmo. Todo o meu quarto serve de palco para o extraordinário gesto de abrir os olhos e ver – num dia o móvel, no outro os pés da minha cama e a estante apinhada de livros, num outro ainda a cortina dourada, que me protege da noite e impede o susto que me causa o sol nascente. Nada é estável; absolutamente nada pode ser considerado estável na vida. Assim como as palavras: tantos significados elas têm! E mais: são, ao mesmo tempo, objetos frágeis nas mãos de um escritor; correm o risco de se tornarem repetitivas, de descumprir a sua função última de dizer o inominável, se por acaso forem postas no papel em prol da beleza. Perdem a consistência e desvanecem antes que se alcance um purpúreo entendimento. Palavras servem para dizer e nada mais. O quê, não importa.
Logo estou de pé e o que me vem, portanto, à cabeça, antes mesmo do café fresco me chamar da cozinha, é uma frase, qualquer frase. Uma como “O seu tempo lhe indicava a sua precariedade”. E então, tão depressa quanto o despertar, mergulho em mil pensamentos acerca desta frase. Quem percebe que o seu tempo de vida lhe aponta a sua precariedade humana? – me pergunto – Um homem, uma mulher? Um empresário ou um professor aposentado? Uma dona de casa ou uma mulher de classe média, independente e solitária? Cada resposta para cada pergunta me propõe um novo caminho, um novo jogo de perguntas e respostas que conduzem meu barco por um mar calmo até a hora do almoço. Mas antes, veja bem, antes de me concentrar no alimento que se estende à minha frente (como se fosse a pista de que eu precisava para desvendar todo o mistério), reclamam a minha ajuda para tirar da varanda um viveiro antigo, enferrujado. Sendo eu um distraído, não há como escapar do acidental corte na mão: nebuloso, vagaroso, asfixiante. O arame vai se arrastando, demarcando a palma da mão, deixando atrás de si um rastro de sangue e ardência. Com isso as linhas da minha vida se tornam mais densas, fortes, vermelhas e vívidas. É como se a existência de um futuro se confirmasse. Arranco numa atitude inocente a pele morta e deixo apenas o arranhão à vista, latejante. Para saciar a invariável coceira, para me rasgar como se eu fosse um esboço. Aí finalmente vejo que o personagem se sente sufocado. Sim, extremamente sufocado e sem rumo aparente. Nada pode salva-lo, ao que parece (como se vê, ninguém mais do que um homem pode viver semelhante enredo). É um homem que sente intimamente que vai morrer logo-logo. Mas ele não teme a morte propriamente dita: teme ser esquecido. E sumir é sua única maneira de ludibriar a morte, de se tornar eterno antes mesmo que se feche a tampa do caixão, de transpassar a teia do tempo... planeja minuciosamente o seu desaparecimento, sem maiores cenas dramáticas. Apenas separa dentro da única mala uma muda de roupa caso se arrependa de dar cabo da própria vida, embora desaparecer daquele cotidiano vivido por tantos anos fosse um fato decidido na sua cabeça. À tarde, entre um gole e outro de café eu trato dos morangos. E uma vez mais o vermelho muda o tom das minhas mãos, do meu paladar. Havia já preparado uma gelatina de limão e lavado a louça suja do almoço. Pois seria por acaso este homem prestes a morrer um homem só, sem ninguém que lhe preparasse a gelatina de limão? Sem dúvida... E quem disse que tinha predileção por gelatina de limão? Framboesa era o que o remetia aos seus radiantes dias de menino. Ele busca o não sentir, o não pensar, o não falar. Trata-se de um ser em constantes reformas, se construindo e destruindo ao longo dos anos. A solidão mais torpe faz parte de si e a incomunicabilidade com os acontecimentos brutais da vida significam o maior de todos os erros.
Alguma coisa cresce sem cessar até o entardecer, o anoitecer, a noite propriamente. E sono que vêm com as estrelas das primeiras horas da madrugada. Às vezes o que resta é tudo aquilo que não se passa pela cabeça – ficando adormecido no inconsciente – e à medida que o raio de criatividade se realiza concreto e luminescente, proporcional a este é o medo – sempre forte e grandioso. E o único lugar possível onde nada do que se teme pode acontecer é a cama, infinitamente à espera de ser esquentada durante uma noite longa e retilínea de sono e sonhos.

posted byL.4:06 PM

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Terça-feira, Julho 15, 2008


EU, APRENDIZ

O conhecimento, a curiosidade, descoberta, em mim, nunca estão concentrados em si mesmos, nunca chegam a seu termo. Agem no meu dia a dia como o fluir de um rio: simplesmente acontecem. E eu necessito intensamente deles para, antes de tudo, ser. Nem mesmo a minha personalidade está fechada: amanhã um algo novo acontece que pode estender ainda mais o pavio que separa o fogo da bomba. Fico totalmente a mercê dos acontecimentos da vida; são eles que me ditam os passos, me apontam caminhos e me impulsionam a tomar determinada atitude. Eu não sou nada sem meus livros, sem as conversas furtivas, sem o olhar panorâmico da janela do meu quarto – de onde, acredite, eu vejo o mundo. A distância do meu olhar não encontra limites Eu sinto no cheiro que vem com a brisa o perfume dos que saem de casa para um encontro; ouço uma insignificante discussão vinda do bar; toco nas folhas secas que vieram voando, soltas, livres, tais quais os meus pensamentos quando me encontro neste estado de profunda aprendizagem. Pois cada coisa que vejo, ouço, aspiro, sinto, se acumula em mim, sofre uma metamorfose, toma corpo, alma, toma para si o desejo incontrolável de existir, reclama pela vida e, de repente, antes uma crisálida, se transforma em borboleta e voa.


TRÊS POEMAS DE DOR E DESPEITO


Eu sou o que não tem fundo.
No caminho, áspero, estreito, surdo.
Não busco,
Não clamo,
Não choro: Calo.

Vivo passo por passo,
Hora por hora,
De espaço em espaço.
Passo...

Ah, quem me dera pudesse ser
Como os que encontram um fim:
Ser esparso, ser claro, ser fato.
Ser todo o meu corpo o contraponto de mim.

----XXX-----

O que será preciso alcançar
para interromper a sua subida?
Porque só mais de cima posso te gritar “pare”!

Mas não pare!

A sua fuga me diz o quanto
sou importante.
E você assim distante
é também minha dor, o oco, o eco.

Me sare.

Não suba.
Nem desça.
Espere que eu chegue.
Ou melhor: me apanhe.

Na verdade te peço apenas que não me abandone
Ou se esqueça
Ou fique indiferente.
Por essa noite e mais além...

Ficarei aqui, por você, insone.

---XXX----

Não, agora não, por favor, depois, daqui a pouco.
São bobagens:
Eu só queria te dizer do meu amor,
Das minhas mágoas, do quanto sofro,
Mas não há tempo, já.

Preciso antes matar.
Matar tudo o que tira a tua atenção de mim.
Matar a felicidade dos que vivem o amor até as entranhas,
Sem dor.
Para em seguida, rapidamente, escapar como qualquer admirável criminoso
(por um curto tempo, juro!).
Sumir até o crucial momento
De se fazer parar
As ondas do mar
As aves no ar
O tempo.

E então, aí sim, senhor da calma dos espíritos benfazejos, poderei te falar secamente
De todas as coisas que me levou a ser assim
Mais eu
Mais breu
Mais teu.

posted byL.9:09 PM

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